A CBL anunciou na noite de terça-feira (11) os vencedores do 3º Prêmio Jabuti Acadêmico, em cerimônia no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo. Obras sobre crise climática, desigualdade e ditadura militar estão entre os destaques.
Cerimônia em São Paulo revela vencedores do 3º Prêmio Jabuti Acadêmico
A Câmara Brasileira do Livro (CBL) anunciou, na noite de terça-feira (11), os premiados da 3ª edição do Prêmio Jabuti Acadêmico. A cerimônia ocorreu no Teatro Sérgio Cardoso, na capital paulista, e reuniu autores, editoras e representantes do setor editorial. Criada em 2024, a premiação é voltada a obras acadêmicas, científicas e técnicas, e amplia a visibilidade de autores e editoras desses segmentos. A edição contou com 27 categorias divididas em dois eixos: Ciência e Cultura e Prêmios Especiais.
O que muda com a 3ª edição do Jabuti Acadêmico
A edição de 2026 trouxe um recorte claro: obras que dialogam com desafios contemporâneos e questões históricas que ainda reverberam na atualidade. Crise climática, desigualdade social, ditadura militar e saberes tradicionais indígenas e africanos foram os temas que dominaram as categorias premiadas. O resultado reforça uma tendência do prêmio de valorizar pesquisas com impacto social direto, em vez de apenas mérito acadêmico isolado.
Para autores e editoras, o reconhecimento vai além da estatueta. Os vencedores receberam um prêmio de R$ 5 mil, e as editoras das obras premiadas também receberam a estatueta. O valor, embora simbólico frente ao custo de produção científica, posiciona o prêmio como um selo de qualidade que pode ampliar a distribuição e a adoção dessas obras em cursos e bibliotecas.
Destaques entre os vencedores: da antropologia à economia
A obra "O jeito Yanomami de pendurar redes" (Editora Perspectiva), de Thiago Benucci, venceu na categoria Antropologia, Sociologia, Demografia, Ciência Política e Relações Internacionais. O título aborda saberes tradicionais indígenas e foi escolhido entre concorrentes de áreas correlatas. Na categoria Economia, o prêmio foi para "A loteria do nascimento: filha do porteiro termina universidade, mas não alcança filho do rico" (Editora Jandaíra), de Fillipi Nascimento e Michael França. A obra trata de mobilidade social e desigualdade, temas que atravessam o debate público brasileiro.
Em Ciências Agrárias e Ciências Ambientais, o título vencedor foi "Saúde do solo em ecossistemas tropicais: a base para mitigação e adaptação às mudanças climáticas" (Editora Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz), de Carlos Eduardo Pellegrino Cerri, Carlos Roberto Pinheiro Junior, Lucas Pecci Canisares e Maurício Roberto Cherubin. A obra conecta diretamente a produção agrícola à agenda climática, um dos eixos mais estratégicos da pesquisa brasileira.
Obras históricas e contemporâneas no pódio
Na categoria Ciências da Religião e Teologia, o prêmio foi para "Brasil africano: orixás, sacerdotes, seguidores" (Editora Pallas), de Reginaldo Prandi. O título resgata a influência africana na formação religiosa do país. Em Comunicação e Informação, o 1º lugar ficou com "Crime sem castigo: como os militares mataram Rubens Paiva" (Editora Matrix), de Juliana Dal Piva. A obra revisita um episódio central da ditadura militar brasileira e sua repercussão até os dias atuais.
A lista completa dos premiados foi divulgada pela CBL e está disponível no site oficial da premiação. A curadoria das 27 categorias demonstra a amplitude do campo acadêmico brasileiro, com espaço tanto para ciências duras quanto para humanidades.
José Goldemberg: a personalidade acadêmica da noite
O grande homenageado da 3ª edição foi o físico, professor e pesquisador José Goldemberg. A CBL o anunciou como Personalidade Acadêmica, reconhecendo sua trajetória científica, liderança acadêmica e contribuição para o desenvolvimento da ciência, das políticas públicas e da sustentabilidade. Goldemberg esteve presente na cerimônia para receber a estatueta.
Em seu discurso, o professor traçou um panorama de sua formação. "Sou um produto típico da educação pública e laica do Brasil. Escola primária em Porto Alegre, ginásio no Colégio Estadual Júlio de Castilhos, de forte influência positivista, para quem a ciência é o motor da história, e Universidade de São Paulo (USP), em 1945", disse. Ele relatou que seu interesse pela ciência se manifestou cedo, pela curiosidade de descobrir a causa das coisas, rejeitando explicações religiosas e metafísicas.
Goldemberg iniciou suas pesquisas em física nuclear na USP e trabalhou no exterior, na Universidade de Stafford e na Universidade de Paris. Após 20 anos dedicados à pesquisa, passou a atuar na SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), em defesa da ciência e dos cientistas durante o período do governo autoritário. Foi nessa fase que direcionou sua atenção para energia, meio ambiente e mudanças climáticas.
O legado de Goldemberg: energia e transição sustentável
Como reitor da USP, de 1986 a 1990, Goldemberg tentou recuperar o nível acadêmico e científico que a universidade havia perdido no período autoritário. Ele também mencionou seu trabalho em fontes de energia renováveis e biocombustíveis. Em colaboração com os pesquisadores Robert Williams (Estados Unidos), Thomas Johansson (Suécia) e Amulya Reddy (Índia), publicou em 1988, pela Wiley-Ester, o livro "Energy for a Sustainable World" (Energia para um mundo sustentável), que se tornou referência na área e impulsionou a transição energética global.
Segundo a CBL, ao longo de mais de sete décadas de atuação, Goldemberg consolidou-se como uma das principais referências da ciência brasileira e internacional, nas áreas de física, energia, meio ambiente e educação. A organização destacou que seu trabalho foi decisivo para projetar internacionalmente o programa brasileiro de biocombustíveis, consolidando-o como referência mundial em transição energética e desenvolvimento sustentável.
Entre os reconhecimentos recebidos por Goldemberg estão o Blue Planet Prize (Japão, 2008), considerado um dos mais importantes prêmios internacionais da área ambiental, e o Trieste Science Prize, da Academia Mundial de Ciências (TWAS), em 2010. Em sua fala final, ele dividiu o prêmio com cada colega, aluno e instituição que "ousa acreditar que o futuro do Brasil se constrói com educação pública, ciência e coragem".
Homenagem ao Livro Acadêmico Clássico 2026
Além dos vencedores por categoria, a noite reservou uma homenagem especial. A obra "História das Mulheres no Brasil", da historiadora, escritora e professora Mary Del Priore, foi escolhida como o Livro Acadêmico Clássico 2026. O objetivo da categoria é reconhecer obras de relevância permanente para a produção do conhecimento no país, destacando títulos que marcaram gerações de pesquisadores, estudantes e leitores. O título foi escolhido pela diretoria da CBL após consulta pública inicial.
A escolha de Del Priore reforça o papel do prêmio em consolidar obras que atravessam décadas e continuam fundamentais para a pesquisa brasileira. A consulta pública, nesse caso, indica um esforço da CBL em envolver a comunidade acadêmica na decisão, um diferencial em relação a outras premiações do setor.
O que a premiação significa para o setor editorial acadêmico
A 3ª edição do Jabuti Acadêmico chega em um momento em que o mercado editorial brasileiro busca ampliar o alcance de obras científicas e técnicas. A premiação, criada em 2024, já se consolidou como um termômetro da produção acadêmica nacional. Ao premiar temas como crise climática e desigualdade, a CBL sinaliza quais debates considera prioritários para o desenvolvimento do país.
Para gestores públicos e planejadores, o prêmio oferece um mapa do que a pesquisa brasileira produz de mais relevante. A diversidade de temas, perspectivas e contribuições, como destacou Sevani Matos, presidente da CBL, enriquece o debate acadêmico e amplia a produção de conhecimento. "É motivo de muita comemoração reconhecer obras de alta qualidade que evidenciam a força da pesquisa e da produção editorial acadêmica no Brasil", afirmou.
A cerimônia no Teatro Sérgio Cardoso também reforça a importância de espaços culturais públicos para a consolidação de premiações desse porte. A escolha do local, um dos mais tradicionais da capital paulista, dá ao evento uma dimensão que transcende o ambiente universitário.
Perguntas Frequentes
Quem pode participar do Prêmio Jabuti Acadêmico?
O prêmio é voltado a obras acadêmicas, científicas e técnicas, publicadas por editoras brasileiras. A premiação foi criada em 2024 pela Câmara Brasileira do Livro (CBL).
Quantas categorias teve a 3ª edição do Jabuti Acadêmico?
A edição contou com 27 categorias divididas em dois eixos: Ciência e Cultura e Prêmios Especiais.
Qual o valor do prêmio para os vencedores?
Os autores vencedores receberam a estatueta do Jabuti Acadêmico e um prêmio de R$ 5 mil. As editoras das obras premiadas também receberam a estatueta.
Quem foi o grande homenageado da 3ª edição?
O físico, professor e pesquisador José Goldemberg foi anunciado pela CBL como a Personalidade Acadêmica da edição, em reconhecimento à sua trajetória científica e contribuição para a ciência e a sustentabilidade.
O que é o Livro Acadêmico Clássico?
É uma homenagem a obras de relevância permanente para a produção de conhecimento no país. Na 3ª edição, o título escolhido foi "História das Mulheres no Brasil", de Mary Del Priore.
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