# Orides Fontela: a radicalidade de uma vida dedicada à poesia

> Orides Fontela (1940-1998) dedicou a vida à poesia com radicalidade literária. A obra da poeta ficou décadas restrita a círculos acadêmicos. Orides Fontela é a homenageada da Flip 2026, o que inicia a redescoberta de sua produção pelo grande público.

*Congresso e Turismo · Dicas de Viagem · 22 de julho de 2026 · Sônia Vargas Pimentel*

Orides Fontela (1940-1998) dedicou a vida à poesia, mas sua obra ficou décadas restrita a círculos acadêmicos. Agora, como homenageada da Flip 2026, sua radicalidade literária começa a ser redescoberta pelo grande público.

## Orides Fontela: a poeta que viveu a radicalidade da palavra

Orides Fontela (1940-1998) transformou o ofício da escrita em uma forma de existência. Considerada por críticos e estudiosos uma das grandes poetas brasileiras do século 20, construiu uma obra marcada pela precisão da linguagem e pela densidade filosófica. Ela dedicou-se a pensar o poema, perseguir a palavra exata, escrever e reescrever, como se lapidasse os versos.

O resultado é uma obra poética em que poucos versos dão conta de reflexões profundas. No entanto, durante boa parte da vida e mesmo depois de sua morte, a poesia dela permaneceu por décadas restrita a círculos acadêmicos, à margem de um reconhecimento mais amplo. Enquanto seus poemas despertavam a atenção entre críticos, professores e escritores, ela seguia invisibilizada diante do grande público.

Quase 30 anos depois de sua morte, a 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que começa nesta quarta-feira (22), tem Orides Fontela como homenageada. A escolha da curadora Rita Palmeira tem permitido que se reconheça o valor do trabalho da autora, cuja vida se organizou em torno da poesia. Além disso, o evento deve promover um maior acesso do público à obra dela.

## A vida e a obra de Orides Fontela

Natural de São João da Boa Vista, no interior paulista, a poeta se formou em filosofia, além de ter sido professora primária e bibliotecária. A autora venceu o Prêmio Jabuti com o livro _Alba_, em 1983, na categoria Poesia, e o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) em 1996.

Segundo o pesquisador e jornalista Gustavo de Castro, autor da biografia _O Enigma Orides_ (editora Hedra), no passado, principalmente enquanto ela era viva, havia uma narrativa consolidada sobre a escritora, inclusive na imprensa, que deslocava o foco da poeta para uma personagem quase folclórica, descrita a partir de conflitos pessoais.

"Ela não teve reconhecimento de sua obra. Ela era conhecida como uma poeta universitária, foi reconhecida pelos críticos, pelos professores da universidade, mais ninguém. Ela não tinha um alcance nacional, não mesmo, como isso que está acontecendo agora com a Flip, graças a Rita Palmeira, que teve uma visão de valorizar uma mulher poeta, pobre e marginalizada", disse Gustavo de Castro, em entrevista à Agência Brasil.

## Por que Orides Fontela foi invisibilizada?

Segundo ele, os rótulos e estereótipos atribuídos a Orides foram muito destacados em detrimento do valor literário da obra dela. O pesquisador defende que a autora seja reconhecida como uma artista que fazia poesia apesar das situações extremas de pobreza.

"É uma poeta inteligentíssima, que pensa o livro enquanto produto artístico, o poema enquanto elaboração sensível, e a palavra enquanto sentimento."

Outro elemento que contribuiu para invisibilizar Orides, aponta o pesquisador, foi o machismo. "Ela foi vítima do machismo, que está na sociedade brasileira e por isso também está na literatura brasileira. E esse machismo continua", lamentou Castro.

O pesquisador disse que a autora ainda é retratada na imprensa a partir dos estereótipos atribuídos, majoritariamente, a mulheres que desafiam as expectativas sociais sobre comportamento, relações afetivas e trabalho.

"A Orides que merece ser vista é aquela que medita a palavra. A palavra dela é como um cristal: se você gira um pouquinho para cá, você vê uma determinada coisa. Se gira um pouquinho para lá, você vê uma outra coisa. Esse é o poder da poesia", ressaltou.

## O processo criativo de Orides Fontela

Orides tinha um processo de escrita marcado pela reescrita constante. "Ela terminava de ler um livro e escrevia atrás dele alguns versos, inspirada naquela leitura. Ela escrevia em folhas avulsas e ia guardando em pastinhas. Depois reunia, retrabalhava, reescrevia. A poesia de Orides tem muito de reescritura, isso é uma marca", contou Castro.

"Mas não era essa poeta que marca um horário, senta, escreve, sabe? Ela tentava unir inspiração e transpiração, no sentido de captar uma ideia poética, anotar e depois retrabalhar aquilo com calma", explicou. Lançada originalmente em 2015, a biografia de Orides foi reeditada e ganhou trechos inéditos neste ano em que a autora é a homenageada da Flip.

## A radicalidade de viver pela poesia

Para Gustavo Castro, que tem como tema de pesquisa acadêmica justamente biografias de poetas, chama atenção a dedicação de Orides a pensar a poesia continuamente.

"Só pensa poesia, vive poesia, respira poesia. A família da Orides, o pão da Orides, a vida da Orides eram a poesia. Isso implica uma vida de intensidade, viver na intensidade da poesia."

Ele ressaltou que, apesar das condições materiais precárias que marcaram a trajetória da autora, Orides continuou a se dedicar à poesia. "Isso é muito radical. Essa radicalidade de sacrificar as condições materiais em função da poesia, quem faz isso? Orides fez", disse o biógrafo. "Ela é uma espécie de santa da poesia, eu costumo dizer. Porque é uma espécie de santidade, de pureza, de crença na palavra poética."

"Não precisa também idealizar a Orides, não, sabe?", ponderou Gustavo, relatando que ela viveu um "despedaçamento" em sua vida por conta dessa dedicação total à poesia. "Você não consegue ter uma vida prática, objetiva, prosaica. Você se despedaça, como foi o caso dela. Ela foi se esquecendo de tudo, até de si mesma."

O biógrafo lembrou ainda uma expressão que a poeta costumava mencionar. "Ela dizia assim: 'Clarice Lispector escreveu _Perto do Coração Selvagem_. Eu sou o próprio coração selvagem.'" Ele conclui: "Orides estava muito próxima de um estado radical, selvagem, de apostar uma vida inteira em palavras, em versos, e até abdicar de relações em função da sua poesia."

## Perguntas Frequentes

### Quem foi Orides Fontela?

Orides Fontela (1940-1998) foi uma poeta brasileira, natural de São João da Boa Vista (SP), formada em filosofia, professora primária e bibliotecária. É considerada uma das grandes poetas do século 20.

### Orides Fontela ganhou algum prêmio?

Sim. Ela venceu o Prêmio Jabuti com o livro _Alba_ em 1983, na categoria Poesia, e o prêmio da APCA em 1996.

### Por que Orides Fontela é homenageada na Flip 2026?

A 24ª Flip, que começa em 22 de julho de 2026, tem Orides Fontela como homenageada por escolha da curadora Rita Palmeira, para valorizar uma poeta mulher, pobre e marginalizada.

### O que é a radicalidade de Orides Fontela?

Segundo o biógrafo Gustavo de Castro, a radicalidade está em sacrificar condições materiais em função da poesia, vivendo em intensidade e dedicação total à palavra poética.

### Onde posso ler a biografia de Orides Fontela?

A biografia _O Enigma Orides_, de Gustavo de Castro, foi lançada originalmente em 2015 pela editora Hedra e reeditada com trechos inéditos em 2026.

---

Fonte (canonical): https://congressoenoturismo.com.br/dicas-de-viagem/orides-fontela-radicalidade-uma-vida-dedicada-poesia/
