Dicas de Viagem Atualizado em 03 de agosto de 2026 por Tatiana Holanda Quezado

O projeto Vídeo nas Aldeias, criado em 1986 pelo cineasta Vincent Carelli, alerta para o risco de perder seu acervo de mais de 70 filmes e 4 mil horas de gravação, que documentam povos indígenas do país.

Projeto Vídeo nas Aldeias alerta para risco de perder acervo

O projeto Vídeo nas Aldeias, criado em 1986 pelo indigenista e cineasta Vincent Carelli, alerta para o risco de perder seu acervo de mais de 70 filmes que documentam populações indígenas do Brasil. A iniciativa, que formou gerações de cineastas indígenas, reúne gravações produzidas em colaboração com mais de 40 povos.

O que está em jogo: um patrimônio de mais de 4 mil horas de gravação analógica e "outras tantas de digital nativo", segundo o próprio Carelli. O alerta foi feito durante aula ministrada no festival de cinema Bonito CineSur, que termina neste sábado (01) em Bonito (MS).

Por que o acervo do Vídeo nas Aldeias está ameaçado?

O acervo do projeto enfrenta riscos por falta de instituições preparadas para guardá-lo. "Para que museu isso iria? Qual instituição poderia fazer esse trabalho que a gente faz de atender e dar acesso a coisas específicas?", questionou Carelli. Ele destacou que instituições públicas são mal financiadas e não estão preparadas para manter acervos digitais, "que é uma coisa muito mais cara do que guardar fita".

A preocupação não é isolada. Daniela Siqueira, professora da graduação em audiovisual da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), afirma que o caso demonstra a necessidade de políticas públicas para preservação do patrimônio audiovisual brasileiro. "O Estado brasileiro, sim, tem pensado mais na questão da preservação audiovisual, mas o que a gente precisa ainda entender é que a gente precisa criar uma equação mais equilibrada entre o dinheiro que a gente põe na produção e o dinheiro que a gente põe para preservar", disse em entrevista à Agência Brasil.

O custo do digital e o problema da obsolescência

A preocupação com acervos audiovisuais cresceu com a produção digital, que é mais cara e difícil de preservar. "Quando o digital começa a chegar na nossa vida, ele vende uma ideia de que vai resolver todos os problemas. Ele não resolveu, criou outros problemas, e um deles é a questão econômica", explicou Daniela.

Antes, era preciso apenas um espaço físico para guardar filmes. Agora, são necessários espaços digitais, como nuvens, HDs externos e servidores. "Isso custa dinheiro, muito dinheiro", completou.

Há também a obsolescência: o "digital não diz quanto tempo ficará com a gente". "Não é que você compra um servidor e ele vai te servir por décadas, não. Ele vai estar com você apenas por um determinado período", reforçou a professora.

O equilíbrio entre produzir e preservar

Para Daniela, é preciso equalizar os financiamentos entre produção e preservação. "Quando a gente não faz um equilíbrio para a preservação, a gente está jogando dinheiro fora, com certeza, porque a gente está jogando patrimônio fora", ressaltou. Ela alerta que, sem esse equilíbrio, em 20 anos o Estado brasileiro pode perder todo o dinheiro investido em produção audiovisual nesse período.

O papel do Vídeo nas Aldeias na memória indígena

Além de treinar e equipar comunidades indígenas com equipamentos de vídeo, o projeto gerou um grande acervo documental e deu visibilidade às lutas e culturas desses povos. "Esses filmes viraram como carteiras de identidade", definiu o cineasta.

Carelli contou que os povos indígenas eram muito isolados uns dos outros e não se conheciam. Quando os vídeos de uma etnia começaram a ser apresentados para outros grupos, eles "descobriam os outros povos e suas diferentes culturas".

O projeto também transformou as dinâmicas internas das aldeias. "O dispositivo do cinema criou novas relações internas na comunidade. Primeiro porque os jovens sempre olham para fora. Mas com as câmeras, eles tinham que fazer o cotidiano da aldeia, procurar os mais velhos e, com isso, houve um encontro de gerações", relatou.

Um "enclave" na história brasileira

Daniela Siqueira considera o Vídeo nas Aldeias um "enclave na nossa história brasileira" por permitir discutir como se produz imagens no país e por trazer a luta política indígena para a pauta social. "Quando essas imagens vêm, começam a circular em escolas e a ganhar o debate em festivais, sobretudo a partir dos anos 2000, isso cria uma possibilidade de nós, enquanto sociedade brasileira, nos relacionarmos com os nossos indígenas, mediados pelo cinema e pela imagem", disse.

O futuro: redes sociais e comunicadores indígenas

Atualmente, Carelli destaca que a construção sobre a imagem indígena se faz menos pelo cinema e mais pelas redes sociais. "Hoje nasceu uma nova categoria, que eles chamam de comunicadores indígenas. São pessoas que fotografam, escrevem, filmam e que escancaram a janela da visibilidade", afirmou.

O que pode ser feito para preservar o acervo?

A saída apontada pela professora da UFMS é criar políticas públicas que equilibrem o investimento entre produção e preservação. Instituições precisam se preparar para o desafio do acervo digital, que exige infraestrutura e custos contínuos. Sem isso, o patrimônio audiovisual brasileiro corre risco real de se perder. preservação de acervos audiovisuais

Perguntas Frequentes

O que é o projeto Vídeo nas Aldeias?

É um projeto criado em 1986 pelo cineasta Vincent Carelli para capacitação audiovisual e formação de cineastas indígenas. Ele ajudou a formar gerações de cineastas e reuniu mais de 70 filmes produzidos com mais de 40 povos.

Qual o tamanho do acervo do projeto?

O acervo possui mais de 4 mil horas de gravação analógica e outras tantas de digital nativo, segundo Vincent Carelli.

Por que o acervo está ameaçado?

Porque instituições públicas são mal financiadas e não estão preparadas para manter acervos digitais, que são mais caros que fitas físicas. A obsolescência do digital também é um problema.

O que é preciso fazer para preservar o acervo?

Segundo Daniela Siqueira, é preciso criar políticas públicas que equilibrem o investimento entre produção e preservação audiovisual. Sem isso, o patrimônio pode se perder em 20 anos.

Como o projeto impactou os povos indígenas?

Os filmes viraram "carteiras de identidade" para os povos, que passaram a se conhecer entre si. O cinema também criou novas relações internas nas aldeias, aproximando jovens e mais velhos.

  • A repórter viajou a convite do Bonito CineSur.
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