Lançado em 1956, Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, completa 70 anos como um dos livros mais ousados da literatura brasileira. Especialistas analisam sua inovação linguística, o processo criativo e o impacto duradouro na cultura nacional.
Grande Sertão: Veredas faz 70 anos e permanece instigante
Lançado em 16 de julho de 1956, na Livraria José Olímpio, no centro do Rio de Janeiro, Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, completa 70 anos como um dos livros mais ousados e inovadores da literatura brasileira. Para o imortal Eduardo Giannetti, da Academia Brasileira de Letras (ABL), a obra combina um apuro formal inexcedível com uma entrega criativa que o autor descrevia como "experimento quase mediúnico".
A combinação de apuro formal e possessão criativa
Segundo Giannetti, Grande Sertão: Veredas tem dois lados complementares. De um, a pesquisa cuidadosa, a lapidação hiperconsciente da linguagem. De outro, a sensação de ser tomado por algo externo. Rosa usava a expressão "de repente, o diabo me cavalga" para descrever esse processo, lembrou o acadêmico em entrevista à Agência Brasil.
A gestação paralela de duas obras-primas
Entre 1946 e 1956, Rosa produziu simultaneamente Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile, coletânea de novelas. Ambos foram concluídos e lançados em 1956, após serem escritos em Paris, Bogotá e, a partir de 1951, no Rio de Janeiro. O biógrafo Leonêncio Nossa, autor da primeira biografia do escritor, revelou que Grande Sertão era originalmente uma história de Corpo de Baile, desmembrada e transformada em romance independente.
Inspiração em viagem pelo interior mineiro
A viagem de Rosa com o amigo Pedro Barbosa Moreira pelo interior de Minas Gerais, percorrendo a região de Veredas, serviu de inspiração direta para a obra. Nossa destacou que o ambiente das veredas e buritizais, ausente em Sagarana, passou a ser central no romance.
Uma biografia inédita e o processo de pesquisa
Leonêncio Nossa levou dez anos para pesquisar e escrever João Guimarães Rosa, biografia, publicada em 2024. "Ele é considerado o mais inventivo dos nossos escritores e ninguém nunca escreveu uma biografia dele", afirmou o jornalista, que começou a levantar dados em 2006.
Personagens reais e autobiografia no romance
Rosa deu a personagens do livro nomes de pessoas de seu convívio familiar, cultural e político. O jagunço Dos Anjos, por exemplo, remete ao poeta Augusto dos Anjos e ao avô do escritor, o major Luiz Guimarães. "Ele trouxe pessoas com quem convivia para dentro do romance, que tem um caráter muito autobiográfico", comentou Nossa.
Influências culturais durante a escrita
Enquanto escrevia, Rosa ouvia programas da Rádio Nacional com cantoras como Marlene, Emilinha Borba, Ademilde Fonseca e Virgínia Lane. Também se inspirava no cinema, assistiu a Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa, durante a produção.
A recepção crítica e o sucesso de vendas
No lançamento, o livro recebeu críticas pela linguagem popular dos personagens, considerada "de outro planeta". Rosa rebatia: "Os vaqueiros de Minas Gerais, da Bahia, de Goiás falam assim". Apesar das críticas, Grande Sertão esteve entre os mais vendidos já em 1956. A cantora Adriana Calcanhoto destacou que, sem o registro de Rosa, aquela forma de falar popular poderia ter se perdido.
A universalidade de uma obra regional
"É uma coisa louca que seja mundialmente, porque é difícil tradução. É um livro que interessa ao mundo todo, exatamente por ser tão regional e universal", observou Calcanhoto. Para Giannetti, que ocupa a cadeira 2 da ABL, a mesma de Rosa, a obra só cresce com o tempo.
Perguntas Frequentes
Por que Grande Sertão: Veredas é considerado inovador?
Por combinar apuro formal com um processo criativo que o autor descrevia como possessão, criando uma linguagem que reflete o falar popular do interior brasileiro.
Quanto tempo Guimarães Rosa levou para escrever o livro?
Dez anos, entre 1946 e 1956, período em que também escreveu Corpo de Baile.
O livro foi bem recebido na época?
Recebeu críticas pela linguagem considerada estranha, mas esteve entre os mais vendidos já em 1956.
Quem são os especialistas citados na análise?
O imortal Eduardo Giannetti (ABL), o biógrafo Leonêncio Nossa e a cantora Adriana Calcanhoto.
Onde foi lançado o livro?
Na Livraria José Olímpio, na Rua do Ouvidor, centro do Rio de Janeiro, em 16 de julho de 1956.
A newsletter de viagem da Congresso e Turismo
Destinos escolhidos a dedo e roteiros sem pressa, no seu e-mail. De graça.