Dicas de Viagem Atualizado em 20 de julho de 2026 por Ângela Petrovich Maranhão

Lançado em 1956, Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, completa 70 anos como um dos livros mais ousados da literatura brasileira. Especialistas analisam sua inovação linguística, o processo criativo e o impacto duradouro na cultura nacional.

Grande Sertão: Veredas faz 70 anos e permanece instigante

Lançado em 16 de julho de 1956, na Livraria José Olímpio, no centro do Rio de Janeiro, Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, completa 70 anos como um dos livros mais ousados e inovadores da literatura brasileira. Para o imortal Eduardo Giannetti, da Academia Brasileira de Letras (ABL), a obra combina um apuro formal inexcedível com uma entrega criativa que o autor descrevia como "experimento quase mediúnico".

A combinação de apuro formal e possessão criativa

Segundo Giannetti, Grande Sertão: Veredas tem dois lados complementares. De um, a pesquisa cuidadosa, a lapidação hiperconsciente da linguagem. De outro, a sensação de ser tomado por algo externo. Rosa usava a expressão "de repente, o diabo me cavalga" para descrever esse processo, lembrou o acadêmico em entrevista à Agência Brasil.

A gestação paralela de duas obras-primas

Entre 1946 e 1956, Rosa produziu simultaneamente Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile, coletânea de novelas. Ambos foram concluídos e lançados em 1956, após serem escritos em Paris, Bogotá e, a partir de 1951, no Rio de Janeiro. O biógrafo Leonêncio Nossa, autor da primeira biografia do escritor, revelou que Grande Sertão era originalmente uma história de Corpo de Baile, desmembrada e transformada em romance independente.

Inspiração em viagem pelo interior mineiro

A viagem de Rosa com o amigo Pedro Barbosa Moreira pelo interior de Minas Gerais, percorrendo a região de Veredas, serviu de inspiração direta para a obra. Nossa destacou que o ambiente das veredas e buritizais, ausente em Sagarana, passou a ser central no romance.

Uma biografia inédita e o processo de pesquisa

Leonêncio Nossa levou dez anos para pesquisar e escrever João Guimarães Rosa, biografia, publicada em 2024. "Ele é considerado o mais inventivo dos nossos escritores e ninguém nunca escreveu uma biografia dele", afirmou o jornalista, que começou a levantar dados em 2006.

Personagens reais e autobiografia no romance

Rosa deu a personagens do livro nomes de pessoas de seu convívio familiar, cultural e político. O jagunço Dos Anjos, por exemplo, remete ao poeta Augusto dos Anjos e ao avô do escritor, o major Luiz Guimarães. "Ele trouxe pessoas com quem convivia para dentro do romance, que tem um caráter muito autobiográfico", comentou Nossa.

Influências culturais durante a escrita

Enquanto escrevia, Rosa ouvia programas da Rádio Nacional com cantoras como Marlene, Emilinha Borba, Ademilde Fonseca e Virgínia Lane. Também se inspirava no cinema, assistiu a Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa, durante a produção.

A recepção crítica e o sucesso de vendas

No lançamento, o livro recebeu críticas pela linguagem popular dos personagens, considerada "de outro planeta". Rosa rebatia: "Os vaqueiros de Minas Gerais, da Bahia, de Goiás falam assim". Apesar das críticas, Grande Sertão esteve entre os mais vendidos já em 1956. A cantora Adriana Calcanhoto destacou que, sem o registro de Rosa, aquela forma de falar popular poderia ter se perdido.

A universalidade de uma obra regional

"É uma coisa louca que seja mundialmente, porque é difícil tradução. É um livro que interessa ao mundo todo, exatamente por ser tão regional e universal", observou Calcanhoto. Para Giannetti, que ocupa a cadeira 2 da ABL, a mesma de Rosa, a obra só cresce com o tempo.

Perguntas Frequentes

Por que Grande Sertão: Veredas é considerado inovador?

Por combinar apuro formal com um processo criativo que o autor descrevia como possessão, criando uma linguagem que reflete o falar popular do interior brasileiro.

Quanto tempo Guimarães Rosa levou para escrever o livro?

Dez anos, entre 1946 e 1956, período em que também escreveu Corpo de Baile.

O livro foi bem recebido na época?

Recebeu críticas pela linguagem considerada estranha, mas esteve entre os mais vendidos já em 1956.

Quem são os especialistas citados na análise?

O imortal Eduardo Giannetti (ABL), o biógrafo Leonêncio Nossa e a cantora Adriana Calcanhoto.

Onde foi lançado o livro?

Na Livraria José Olímpio, na Rua do Ouvidor, centro do Rio de Janeiro, em 16 de julho de 1956.

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